Uma visão sobre o trânsito brasileiro

1/Julho/2008 por ppanhoto

Esta frase me ocorreu de repente, acho que foi no calor da discussão sobre a nova lei seca, mas desde aquele momento fez todo o sentido: “O motorista médio brasileiro é um ser irracional”. Não dependendo da porcentagem alcoólica no sangue, a imprudência ainda segue. Constância (o que, acredito, faria todos chegarem em casa mais cedo ou ainda diminuiria a sensação de tempo perdido) é uma utopia. Se o trânsito está livre, então quem pode mais chora menos. Todos querem mostrar a potência de seus motores com ainda 60 meses para pagar. Isso vai até que, por algum descuido ou despreparo, um acidente acontece. Logo em seguida, aquele ritmo louco de corrida se transforma em um gigante engarrafamento. Todos simplesmente param para dar atenção ao animal ferido na estrada (por “animal ferido”, entenda o que quiser. Um carro capotado, uma pessoa atropelada, um guincho etc). Lógico, passado o ponto de admirar o acidente (como se nunca houvesse acontecido um), o ciclo recomeça: as pessoas acham que perderam muito tempo, aceleram o que não podem, se descuidam e outro acidente e outro congestionamento e assim por diante.

Sinalizar suas intenções é absolutamente proibido. Seja você um pedestre querendo atravessar em uma faixa (sem um semáforo) ou simplesmente ligar a seta para mudar de faixa. Isto causa um certo pânico no motorista típico, como quem vai perder exatamente aquele segundo mais importante de sua vida e justamente por isso ele tem que defender seu território (sua pista!). Conseqüência lógica, ele acelera e mais uma chance de acidente.

Ah sim, e as buzinas. São úteis quando bem usadas. Eu acredito que uso a buzina com moderação. Normalmente, me presto ao serviço público de “despertador de semáforo”. Logo que o sinal abre, eu buzino e as pessoas andam. Normalmente funciona. Mas, voltando ao caso da buzina irracional. Parece que ela diz “COMO VOCÊ NÃO ME VIU?? EU PODERIA PASSAR POR CIMA DE VOCÊ!”. Normalmente ela vem acompanhada de uma pisada no freio (lembra-se daquele segundo mais precioso da vida do motorista?? Olha ele aqui de novo… ele tem que pisar no freio … mas isso não vai passar em branco, vai uma buzinada na orelha para assustar quem atravessa meu caminho!). Com isso, você vê buzinas em algumas situações absurdas, tais como um fulano que buzina para um catador de papel! O sujeito já está puxando aquela carroça pesada … Nunca que ele vai competir com o motor daquele SUV que buzina. Ou então, buzinam para carros quebrados: “MAS COMO VOCÊ NÃO ANDA??” como se fosse alguma greve do outro motorista. Sem falar na pista da direita.

Ainda há outras barbaridades que podem ser mencionadas, tais como as confluências. Estas são terríveis porque (não sei como) é tão difícil intercalar dois fluxos para que as duas filas andem. Quem consegue fechar o outro põe a sua fila andando e coloca os da fila rival em desespero até que um deles consiga fechar de volta e colocar toda a pista para andar. Este caso ainda está relacionado aos passeios pelo acostamento que funcionam assim: o sujeito está parado na estrada, pega o acostamento e, na iminência de polícia, ele cria uma confluência o que congestiona tudo para o outro que está lá atrás e também resolve pegar o acostamento….

Semáforos também são um tópico interessante no comportamento racional (o que me levou a atuar como  “despertador”). Notei o seguinte: em congestionamentos, todos estão parados no semáforo verde e começam a andar no amarelo. Logo em seguida vem o vermelho e como muitos tiveram pouco tempo para andar, eles acabam fechando o cruzamento o que incorre em mais gente parada no sinal verde e assim por diante.

Curiosamente, todos os casos que citei parecem formar ciclos de repetições. Basta acontecer uma vez e raramente alguém vai ter a cabeça no lugar para quebrar o ciclo. (Daqui veio o pensamento original de que o motorista é irracional).

Concluindo, acho que até na selva há mais ética do que no trânsito de uma grande capital brasileira. É justificado, porque lá ninguém tem pressa. E essa “selvageria” do trânsito me leva a outro pensamento interessante: “Cada segundo da vida que é desperdiçado por (causa de) outros é muito mais importante do que aqueles que eu mesmo desperdicei (por minha conta)”.

Procura-se uma idéia

14/Junho/2008 por ppanhoto

Apesar de um título adequado (uma muito boa desculpa!), este espaço está vago pela falta de idéias e não por tê-las esquecido.

Boas intenções

8/Maio/2008 por ppanhoto

“Não existe gesto mal intencionado”. É uma frase que ouvi algumas vezes e repito o tempo todo. Eventualmente alguém me responde: “mas quando a boa intenção é para si, esse é tecnicamente um gesto mal intencionado”. Após pensar um pouco melhor no assunto, cheguei à conclusão que não é bem assim.

Fui a um cartório hoje e a moça que me atendeu parecia disposta a acabar com qualquer bom humor alheio. Isso me deu uma idéia para pensar a respeito, além de outros eventos recentes …

A pessoa que “tem boas intenções apenas para si” normalmente é uma pessoa infeliz. Aí o tipo de boa intenção vai aparecer conforme a necessidade (normalmente artificial) desta pessoa para se sentir melhor por mais um dia e evitar o suicídio. Acho que os casos mais comuns são das pessoas que gostariam de ter mais empatia alheia e por isso fazem o que podem para contaminar o ambiente com seu estado ou o daqueles que só se sentem bem quando estão comprando. Estes podem acabar prejudicando outros por dinheiro mas devem fazer isto pensando como um ato de sobrevivência para que sempre continue comprando e se sentindo amado por vendedores de toda forma…

Afeto sanfona

2/Maio/2008 por ppanhoto

Ultimamente eu tenho notado algum padrão em relações familiares que chamei de “afeto sanfona”. Funciona exatamente igual à “dieta sanfona” (um dia tá gordo, no outro tá magro). Neste caso, a relação é marcada por uma alternância entre crises sem motivo e uma paz derivada de um suposto esquecimento que, na verdade vai alimentar outra sucessão de crises.

A única coisa sobre os regimes de sanfona é que a maior parte do tempo eles sempre ficam do pior jeito para qualquer um (mais tempo gordos que magros, mais tempo em crise que em paz — Ou seria uma trégua??).

Culpa: O recheio saboroso de um vício

31/Março/2008 por ppanhoto

Hoje eu percebi uma coisa interessante: eu senti prazer em sentir culpa. Eu já não faço uma dieta muito boa e sei disso. Hoje foi um dia em que eu abusei.

Começou com aquela vontade de comer besteira (sei que este é o meu vício não altera comportamento por isso é socialmente aceitável). Eu estava consciente do que fazia. Sabia que eu não precisava fazer isso e que já era demais. A uma certa altura, esse pensamento já era uma obsessão: eu não iria me sentir em paz enquanto eu não comesse besteira. Tomei coragem, fui e fiz o que fiz com gosto. Bom, quando eu acabei de comer, a primeira impressão foi a culpa: “puxa vida, por que eu fiz isso??”. Algum tempo depois, eu percebi que, ainda sentindo culpa, eu vi que foi justamente a culpa que trouxe aquela paz que eu não sentiria se não cometesse nenhum abuso hoje.

Eu estava no controle e mesmo assim escolhi o caminho “errado”. Mesmo assim, foi a culpa por ter errado que possivelmente vai me empurrar a cometer o mesmo deslize novamente. Fico agora me perguntando se este raciocínio não se aplica para qualquer vício.